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Taça Guanabara. O título que não é. Ou é?

February 27th, 2012  |  Published in Futebol Carioca

Ursula Nery/Agência FFERJ

As manchetes esportivas cariocas desta segunda-feira podem ser resumidas assim: “Em grande exibição, o Fluminense venceu ontem (26/fev) o Vasco da Gama no Engenhão por 3×1 e sagrou-se campeão da Taça Guanabara 2012, classificando-se para as finais do Campeonato Carioca. A vitória selou o fim de um jejum de 19 anos do tricolor na competição.”

Para quem não é do Rio de Janeiro, o texto acima produz algum incômodo. “Peraí, como o time pode ser campeão se apenas se classificou para a final de um campeonato? Jejum em turno de campeonato? E alguém lá liga pra isso? Se Estadual hoje em dia já vale pouco, por que tanta comemoração e frisson sobre a conquista de uma vaga em final de Estadual?”

Pois bem, há alguns fatores que ajudam a explicar porque a Taça Guanabara é comemorada como título, mesmo sendo na verdade apenas uma vaga na final do Carioca.

A tradição na origem

A origem da Taça Guanabara remonta à década de 1960, quando o Campeonato Carioca era uma das competições mais importantes do país. O Botafogo, ao lado do Santos, era a principal base da Seleção Brasileira. Os outros clubes cariocas contribuíam com peças importantes. Vale lembrar que, naquela época, o atual município do Rio de Janeiro era uma unidade da federação autônoma: o Estado da Guanabara¹. O Campeonato Carioca fazia juz ao nome² e era disputado pelos quatro grandes e clubes do subúrbio da cidade do Rio. Desde 1959, havia uma competição nacional oficial de clubes, a Taça Brasil, criada para indicar o representante brasileiro na Taça Libertadores. A competição era eliminatória, e contava com um representante de cada estado onde havia futebol profissional. Até 1964, a Guanabara indicava seu campeão da temporada anterior para o torneio nacional. Entretanto, em 1965, criou-se uma nova competição para indicar o representante carioca na Taça Brasil: a Taça Guanabara. A competição diferia do Campeonato Carioca praticamente apenas pelo nome. Enquanto o Carioca era disputado por oito clubes em pontos corridos, turno e returno, a Taça era até mais restrita: disputada por seis clubes (os seis primeiros do Carioca do ano anterior) em turno e returno. Na prática, a Taça acabava sendo mais importante do que o próprio Carioca, pois valia uma vaga em competição nacional, enquanto o Carioca acabava sendo meramente classificatório para a Taça. Assim foram as primeiras quatro edições. O Vasco da Gama foi o primeiro campeão. Em 1966 passou a ser disputada em turno único, sendo vencida pelo Fluminense , seguido pelo Botafogo em 1967 e 1968. Neste último ano, o Botafogo de Jairzinho, Carlos Alberto, Gérson e Paulo César Caju acabou campeão da Taça Brasil.

O breve limbo

Em 1969 a Taça Brasil acabou. A Taça Guanabara perdeu sua função principal. Porém, como a competição havia “pegado” (praticamente disputavam-se apenas clássicos), continuou a ser realizada e atraindo grandes públicos ao Maracanã. Deu Fluminense em 1969 e 1971 e Flamengo em 1970.

O “título do primeiro turno”.

Até 1971 o Campeonato Carioca era disputado em pontos corridos, com turno e returno. No máximo, ocorriam algumas variações em torno disso, como alguma fase anterior eliminando algumas equipes, mas a soma total de pontos era sempre o critério para o título. Em 1972 foi criado o sistema de campeões de turnos se enfrentando em finais. E eles eram três. A Taça Guanabara passou a ser oferecida ao campeão do primeiro. Outros nomes foram dados às taças dos demais turnos, mas nenhum “pegou”, até o advento da Taça Rio em 1982. Mesmo assim, a Taça Rio nunca foi tão comemorada como a Guanabara. A comparação entre a lista de campeões cariocas e de campeões da Taça Guanabara nas 35 vezes em que a Taça correspondeu a uma vaga na final do Estadual entre 1972 e 2011 traz esperanças aos tricolores: por 21 vezes, ou 3/5 do total, o campeão da Taça Guanabara acabou sendo o campeão carioca.

Flamengo – 11 (1972, 1978, 1979, 1981, 1996, 1999, 2001, 2004, 2007, 2008 e 2011)

Vasco da Gama – 4 (1977, 1987, 1992 e 1998)

Botafogo – 3 (1997, 2006 e 2010)

Fluminense – 3 (1975, 1983 e 1985)

Nos dois quintos restantes, o Flamengo foi vice-campeão carioca cinco vezes, após ter conquistado a Guanabara: 1973, 1982, 1984, 1988 e 1989. O Vasco, quatro vezes (1976 , 1986, 1990 e 2000); o Fluminense duas (1991 e 1993); o Botafogo uma (2009) e o Volta Redonda uma (2005). O América, campeão da Taça em 1974, acabou sendo o terceiro colocado no campeonato daquele ano, que teve três turnos.

As exceções

Dizem que as exceções confirmam as regras. O clichê vale para a Taça Guanabara. De 1972 até hoje, por cinco vezes a Taça não valeu vaga na final do campeonato. Uma única vez, em 1980, quando conquistada pelo Flamengo, voltou a ser um torneio à parte. Nas outras quatro oportunidades fez parte de campeonatos cujo regulamento era distinto da lógica dos campeões dos turnos se enfrentando nas finais. Por que digo que estas exceções confirmam a regra? Porque mesmo o campeonato tendo uma fórmula diferente, a disputa da Taça Guanabara foi mantida. O mesmo não aconteceu, por exemplo, com a Taça Rio. Em 1994 o campeonato teve uma fase de classificação com dois grupos e um quadrangular final. Entre as duas fases, os campeões dos grupos se enfrentaram valendo a Taça Guanabara. O Vasco venceu e ganhou um ponto de bonificação para a fase final, quando, por um ponto de diferença, foi tricampeão carioca. No ano seguinte, novamente uma fase de classificação com dois grupos e uma fase final em pontos corridos, agora com oito equipes. Entre as duas fases, disputa da Taça Guanabara entre os vencedores dos grupos. O Flamengo levantou a única taça de seu centenário e ganhou um ponto de bonificação para o octogonal final, onde terminaria vice-campeão. Em 2002, a CBF reorganizou o calendário do futebol brasileiro, oficializando a disputa dos torneios regionais no primeiro semestre, em detrimento dos estaduais. Estes passariam a ser disputados apenas pelos pequenos clubes, e funcionariam como classificatórios para os regionais, que reuniam as grandes equipes. A Federação do Rio, entretanto, se recusou a não promover seu campeonato. Inventou um sistema no qual uma longa primeira fase era disputada em dois turnos ao longo do semestre entre os pequenos clubes e equipes juniores dos grandes, já pré-classificados para uma segunda fase, onde teriam a companhia dos quatro melhores pequenos. A Taça Guanabara foi entregue ao campeão do primeiro turno da primeira fase, o Americano, de Campos dos Goytacazes, primeiro clube do interior a levantar a Taça Guanabara. O Americano acabou vice-campeão carioca naquele ano.

Em 2003, nova reformulação do calendário brasileiro. Foi instituído o Brasileiro por pontos corridos, com oito meses de duração. Os regionais foram extintos e os estaduais voltaram, porém restritos aos primeiros três meses do ano. Para se adequar ao calendário curto, o carioca deixou de ser disputado em turno e returno. Havia uma primeira fase em turno único e os quatro melhores classificavam-se para as semifinais. Para não escapar à tradição, o melhor da primeira fase levou a Taça Guanabara. Deu Vasco, que acabou campeão carioca. Em 2004 iniciou-se o sistema atual, com grupos e semifinais e finais de turno, adequando o sistema tradicional dos campeões de turno se enfrentando nas finais ao calendário curto.

¹ Capital da República até 1960, a cidade do Rio de Janeiro era separada do Estado do Rio de Janeiro, constituindo o Distrito Federal. Quando a capital foi transferida para Brasília, o antigo DF se transformou no Estado da Guanabara, situação que permaneceu até 1975, quando houve a fusão entre os estados da Guanabara e do Rio de Janeiro.

² “Carioca” é o gentilíco aplicado àqueles que nascem na cidade do Rio de Janeiro. O gentílico referente ao Estado é “fluminense”. Daí que o correto seria chamar o atual campeonato estadual do Rio de Janeiro de Fluminense. Porém Carioca resiste por conta da tradição.

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